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De repente, me peguei com 30 e poucos anos, casada, com filhos pré-adolescentes, um ótimo marido, casa própria, carro e trabalhando.
Como todo ser humano, fui preparada para crescer, entrar na escola, namorar, casar, ter filhos e trabalhar, trabalhar, trabalhar.
De repente, com essa idade já havia feito tudo que uma pessoa sonha na vida.
Restou apenas trabalhar. Pra quê? Por quê?
Me peguei em uma insatisfação total, pensando completamente diferente do resto do mundo. Me sentia um bicho fora do ninho, um ET.
Me assustei. Agora tinha que deixar o tempo passar, esperar a aposentadoria, a doença e com elas a morte.
Entrei em pânico. Pensei: será que Deus fez tudo tão bonito, tão bom, pra gente chegar nessa idade e não poder aproveitar?
Remei contra tudo e contra todos, pois no meu pensamento, não podia aceitar isso. Me sentia infeliz(apesar de ter tudo que uma pessoa deseja).
Para mim, o “ter tudo” não trazia felicidade. Percebi que cada vez mais caía em depressão. Não sabia dizer o que era.
Me sentia a própria maluca, pois pensava diferente. Isso me assustava. Tinha que procurar algo que estava faltando, mas não sabia o que era.
O tempo passou (mais ou menos seis anos). Cheguei no fundo do poço, quando parei, obrigatoriamente, por ordens médicas.
Foi um pesadelo. Parei por cinco meses. Fiquei péssima.
De repente, fui convidada para participar de um Congresso em Bertioga, sobre a Terceira Idade.
Foi horrível, mas ao mesmo tempo, ótimo. Me sentia a mais velha de todos (era uma das mais novas, 37 anos).
Uma noite, dancei com um senhor com mais de 80 anos Conversamos e ela fazia planos para mais dez anos. Isso me sacudiu, e muito.
Pensei “como eu, com 37 anos, não tinha planos nem para o dia seguinte e ele com 80 e mais ainda pensava em mais dez anos?”.
Me assustei e me animei. Resolvi trabalhar com a Terceira Idade.
Hoje, depois de seis meses, me sinto com energia renovada e vi que os conceitos sobre velho, velhice, gente doente, gente chata, estavam completamente errados.
Quando terminou o ano de 1993, tendo trabalhado apenas 4 meses, na festa de final de ano, agradecia a chance de poder trabalhar com eles. Terminava o ano sentindo-me novamente com 37 anos.
Minhas esperanças voltaram, meus planos também.
Como estamos despreparados para deixarmos de ser jovem! O que fazer depois que nos tornamos adultos? Será que nunca ninguém pensou nisso?
Resolvi fazer o curso de Gerontologia e vi que tudo que pensava estava nas leituras sobre o assunto.
Vi que, com bebê, gestante, crianças, adolescentes e jovens, todos se preocupam, mas com a fase seguinte, não. Parece que não existe, que não é preciso se preocupar.
Então resolvi entrar por este caminho que, apesar de ser árduo e longo, é compensador e realizante.
Hoje, tenho certeza que é importante que a pessoa se prepare para ficar adulto e seguir as outras etapas da vida.
Quero tentar pelo menos, trabalhar com as crianças e adolescentes, conscientizando-os que na maior parte da vida, passamos “adultos” e como tais, precisamos conscientizar-nos, mudando os pré-conceitos, os esteriótipos sobre a velhice.
Aliás, cheguei à conclusão de que é a fase onde você pode ser você o que você é, como você é, sem preconceitos e complexos.
Realmente, vejo como a fase mais linda do ser humano. O “Ser” (verbo real) na sociedade. Só que para esse “ser” poder ser completo, ainda é preciso mudar muita coisa, principalmente o modo de se ver a velhice.
Chegar à velhice com saúde é privilégio de poucos, devido a somatória de situações desgastantes ao longo da vida. Dai ser relacionada com a doença, com a degeneração com a pluripatologia. Ser velho na nossa sociedade, é estar debilitado, não por decorrência de um processo de envelhecimento natural, mas por um acúmulo de maus tratos, alimentação inadequada e horários desorganizados, relacionamentos interrompidos ao longo do tempo...”daquele tempo” de que os velhos se recordam saudosos, suspirosos...
Não cabe só ao Estado, mas acredito que se dentro de cada lar (micro sociedade) já trabalharmos esta mudança, daqui alguns anos, mesmo que longos anos, conseguiremos mudar as visões e situações da fase adulta em diante.
Acho que precisamos esperar ficar “doentes” para nos darmos o direito ao lazer, ao descanso, sem o sentimento de culpa, de “roubo”.
Precisamos sim, acordar e perceber que temos direitos e não sabemos aproveitá-los adequadamente.
A partir dessa mudança, tenho certeza que a aposentadoria, a velhice serão bem diferentes, terão outras conotações.
Hoje, passado esse tempo e o susto, vejo-me como uma das poucas privilegiadas de ter percebido isso antes dos outros e ter caído fora, para que possa na idade mais avançada, ter uma velhice como uma fase normal e não como um pesadelo.
Agradeço a Deus essa chance que poucas pessoas têm, e que muitas não conseguem enxergar.
Não importa o número de pessoas que alcançarei, mas o que alcançar, tenho certeza que não serão “mais um” velho dentro dos “depósitos” da sociedade nem um peso para ninguém.
É, de fato, aterrorizador sobreviver por longos anos em uma sociedade de supervaloriza a qualidade do descartável, de forma que o valor maior se coloca na “atitude de usar e jogar fora e não nas qualidades intrínsecas do objeto que se está usando, nesse contexto, o homem-objeto durante a vida é um forte candidato ao posto de objeto descartável” (Fraiman,1991).
Você quer chegar na velhice e ser mais um ser descartável? Eu não.
Então pense seriamente na proposta aqui deixada. Reflita e combata o homem-descartável.
Seja realmente o que você é, e não o que o que querem que você seja.
Dedico esse trabalho para pessoas com 30, talvez, até com 20, para que possam perceber o futuro que poderão trilhar em suas vidas. Futuro esse, bom ou ruim, dependendo do despertar de cada um.
o nosso destino, na velhice, se decide durante a infância, a adolescência, a vida adulta, pois a vida é uma seqüência de fatos e etapas e não fragmentos. Somos indivíduos e como tais, somos inteiros, não somos partes ou fragmentos. Não somos Cronos, somos Kairós” .


Por: Cristina Fogaça, Caso tenha ou possua, envie-nos a referência desse texto.


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