O Amor às Crianças

    Deveria ser óbvio, mas não é para muitos: para se pensar em colocar um filho no mundo ou para se escolher uma carreira na Educação, a primeira condição deveria ser a de amar as crianças. É verdade que todo ser humano deveria gostar de crianças, pois a afeição à descendência, a ternura despertada pela graça infantil, o instinto de proteção diante de sua fragilidade, são coisas naturais inerentes à espécie humana. No entanto, o homem tem a liberdade e a capacidade de contrariar até os seus instintos mais básicos, pelo menos temporariamente. E há muitos que não suportam crianças.
    A característica básica da maioria dos inimigos de criança é o egoísmo feroz. A criança pede sempre cuidado, atenção. Uma criança, na vida do adulto, modifica-lhe os hábitos, requer que ele renuncie a alguns de seus prazeres e desejo de uma grande parte do seu tempo. Dá trabalho. E há gente que se encerra num egocentrismo tão doentio que não pode sequer pensar em doar algo de si em favor de um ser que dele dependa.
    Outro aspecto de tais personalidades é geralmente uma falta de sensibilidade e de sentimento, que pode raiar pelo extremo da crueldade e da dureza. Pois quem não é capaz de se comover diante de um rostinho sorridente, quem não é capaz de apreciar a ternura e a sinceridade infantil revela um enorme atraso em sua evolução moral. Incluem-se nesse rol todos aqueles que não conseguem respeitar uma criança, exercendo violências inomináveis contra os próprios filhos ou contra os filhos alheios. Infelizmente, o estágio evolutivo do nosso planeta é ainda tão deficitário, que muitos Espíritos se encontram ainda nesse ponto de atraso e degeneração. Basta ver as barbaridades praticadas contra as crianças nas guerras e, mesmo no cotidiano, o número de estupros, seviciaçoes, rapto e assassinato de menores.
    Mas entre esse extremo brutal e o verdadeiro amor às crianças, há enorme gradação. A maioria das pessoas sente uma inclinação natural pela infância, demonstra algum enternecimento diante da graça infantil. É o começo, mas não basta, pois a ternura inicial não exclui atitudes egoísticas. Uma manifestação de desamor às crianças, constante mesmo entre aqueles que afirmam e até demonstram gostar delas, é considerá-las como um estorvo. Elas atrapalham a ordenação do ambiente, fazem barulho, têm necessidade de se movimentar, de correr, são perguntadeiras, pedem atenção, querem o nosso tempo... São uma perturbação na rotina, nos afazeres, na vida do adulto. A tendência é a chamada imposição de "limites" — muito citada por pedagogos atuais, que na realidade não passa de uma tentativa de estabelecer regras para que a criança não atrapalhe e deixe o maior usufruto possível do espaço e do tempo para o adulto. O objetivo implícito é fazer a criança ver que ela tem de se conformar a ser uma pessoa secundária, uma natureza violentada, para se adequar ao mundo egoístico do adulto.
    O amor pleno à criança é, acima de tudo, ter tempo para ela, aceitá-la como criança, dar-lhe inteira atenção e devotamento, não excluí-la nunca de nossa vida, fazendo-a ver que em qualquer tempo, ela pode estar presente.
    Além de aceitação de sua natureza infantil, amá-la significa enxergá-la como uma pessoa inteira, digna de respeito, com dignidade humana, liberdade de opinião e necessidade de afeto.
    O amor a uma criança ou a algumas crianças que estejam sob nossa responsabilidade só é edificante e legítimo, se não se manifestar exclusivista e egoístico. O amor deve ser justo e não desprezar ninguém. Diante de uma criança que seja nossa filha ou tutelada e de outra que não seja, tratemos ambas com o mesmo carinho, sejamos justos na divisão de brinquedos, alimentos e carícias e jamais coloquemos uma criança em posição inferior à outra. Se com os adultos — embora devamos amar ao próximo como a nós mesmos — podemos ter nossas simpatias e preferências, nosso amor às crianças deve ser farto e indistinto.
    Quanto aos que se dedicam profissionalmente à Educação, é preciso que tenham uma grande paixão por crianças e especial prazer em estar com elas. Que apreciem suas qualidades, que considerem seu trabalho um privilégio e tenham plena consciência da responsabilidade moral que ele implica. Nenhuma escolha profissional deve ser fruto do acaso e da indiferença, menos ainda a tarefa da educação. Ela deve brotar em primeiro lugar de um grande amor à criança e a humanidade em geral. Quem não se sinta a vontade, alegre e satisfeito com um bando de crianças correndo e gritando à sua volta, que as deixe em paz e procure outra atividade, para não se tornar rabugento, tirânico e frustrado.


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