Em Dificuldades

Reajustado, notei que podia enfrentar os conflitos da hora, sem embaraços de vulto.

O Irmão Andrade acentuou que, livre dos últimos remanescentes do corpo carnal, eu conseguiria aproximar-me dos amigos, sem choques de maior importância, aconselhando, porém, a não me avizinhar em demasia das vísceras cadavéricas, em cuja contemplação, talvez fosse acometido por impressões desequilibrantes.

As novidades sucediam-se umas às outras.

Aquinhoado por visão mais segura, reparei estupefado, que desencarnados em grande número se apinhavam ao redor.

Entidade menos simpática, quase rente a nós, dizia para outra que lhe era semelhante:

-O enterro é do velho Jacob, aquele mesmo, que nos doutrinou, há tempos. Não se recorda?

-Perfeitamente – respondeu o interlocutor, gargalhando -, daria tudo para ver lhe a “cara’”.

Riram-se gostosamente. Memória funcionando sem empecilhos, registrando-lhes os apontamentos sarcásticos, localizei-os na lembrança.

Eram perseguidores de uma jovem internada numa casa de nervos. Evoquei as particularidades da reunião em que me havia entendido com eles. Achava-me sumamente enfraquecido. Mesmo assim, gostaria de responder-lhe. Rememorei o interesse com que eu recebera a descrição da médium vidente, em relação a ambos, e confirmava, admirado, por mim mesmo, os informe com que fora presenteado.

Sacrificaria muita coisa para interpela-los, fazendo-lhes sentir o erro em que laboravam, e dispunha-me a interferir, quando o Irmão Andrade me controlou, os impulsos, acrescentando:

-Não faça isso! Provocaria contenda desagradável e inútil. Além do mais, eles não nos vêem. Respiram noutra faixa vibratória.

Realmente, procediam como se nos não vissem. Permaneciam junto de nós, sem perceber-nos, tanto quanto noutro tempo me movimentava, por minha vez, ao pé das entidades desencarnadas, sem notar-lhes a presença.

-Haverá tempo – frisou o amigo, bondoso e calmo.

Observando-me o encorajamento, conduziram-me os três à vizinhança imediata do corpo hirto.

Não obstante as melhoras de que me sentia possuído, não consegui atravessar a onda de força que se improvisara ao longo dos veículos.

Desejava ardentemente penetrar o recinto doméstico e, sobretudo, espargir, sobre os entes amados que ficariam distantes, os meus pensamentos de amor, reconhecimento e esperança. Bezerra, porém, avisou prudentemente:

-Não insistamos. É desaconselhável por agora, a perda de reservas.

Contentei-me, buscando avistar amigos nos automóveis.

Grupinho de conhecidos atraiu-me a atenção. Avancei para eles, mas fui constrangido a afastar-me, decepcionado. Comentavam a política, em agressiva atitude. Mergulhavam a mente em disputas desnecessárias.

Pela primeira vez, verifiquei que os Espíritos inferiores não se comunicam somente nas sessões doutrinárias. A palestra, apesar de desenvolver-se discreta, apresentava notas de intercâmbio com o plano invisível, em cujos domínios ingressava eu, receoso e encantado. Um amigo expressava-se quanto os problemas da vereança municipal, perfeitamente entrosado com uma entidade menos digna que, ali ante meus olhos espantados, o subjugava quase que por completo, obrigando-o a proferir sentenças desrespeitosas e cruéis.

Retrocedi, instintivamente.

-Você, Jacob – falou Bezerra, em tom grave -, por enquanto ainda não pode suportar estes dardos mentais.

Encaminhamo-nos, então, para outro ângulo da rua.

Descobri nova agremiação de pessoas às quais me afeiçoara profundamente.

Busquei-lhes a companhia, ansioso, seguido de perto pelos benfeitores; contudo, outra desilusão me aguardava. Falava-se em voz baixa, sobre as despesas prováveis com o enterramento dos meus despojos. Emitia-se julgamento apressado, envolvendo-me o nome em impressões desarmoniosas e rudes.

Recuei, como já o fizera.

Bezerra abraçou-me, compreensivo, e receitou paciência.

Abeirava-me de profundo desalento, quando não longe, em certo veículo, observei a formação de lindos círculos de luz.

O Irmão Andrade, atendendo-me à indagação silenciosa, esclareceu:

-Naquele carro, temos a claridade da oração sincera.

Pedi aos protetores me auxiliassem a procurar semelhante abrigo, mais depressa.

Alcancei-o e rejubilei-me. Alguns companheiros ofertavam-me os recursos da prece santificante. Tamanho dói o meu contentamento que quase me ajoelhei, feliz.

Aquela rogativa que formulava a Jesus, em benefício de minha paz, constituía dádiva celeste. Do pequeno conjunto emanava energia confortadora que me penetrava à maneira de chuva balsâmica.

A oração influenciara-me docemente.

Creio que os recém-desencarnados quase sempre necessitam do pensamento fraterno dos que se demoram no círculo carnal. Explicou Bezerra que os recém-libertos comumente precisam do socorro espiritual dos entes queridos para se desembaraçarem sem delonga dos liames que ainda os prendem à experiência material.

Com o auxílio dos que ficam, aqueles que partem seguem mais livremente ao encontro do porvir.


Irmão Jacob